vou perdê-la em breve
sento-me numa cadeira de plástico branco junto à janela, na sala estão mais pessoas que eu não conheço e lá fora cheira a verão. trago comigo um maço de tabaco amachucado dos bolsos cheios, trago também um livro preto onde escrevo. à minha frente uma mulher de meia idade olha o ecrã da tv montada na parede, olha de boca aberta e respira pesadamente, um fio de baba baloiça dos lábios secos até à saia castanha que veste, entre os dedos magros traz um crucifixo de plástico branco meio mordido. ao meu lado está um homem de idade avançada, chora baixinho. na mão tem uma foto de uma rapariga que aparenta ter perto dos 20 anos, ao ver que o olho limpa o rosto com a manga suja da camisa e diz-me; é a minha filha vou perdê-la em breve. não tive noção do peso que as palavras podem ter quando não estamos bem, pensei que poderia aliviar a dor de um pai com uma filha doente, não pensei que estaria a falar com um homem decidido. morrer faz parte da vida como o ar que se respira, quando sustemos a re...