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A mostrar mensagens de março, 2020

pétalas de sangue

por entre as brechas de um peito aberto se vê o bater de um coração morto bombeia cinzas como um vulcão em êxtase da boca saem faíscas que iluminam o céu nelas se perdem olhares pedem-se desejos das mãos trémulas que seguram o gume caiem pétalas de sangue delas nasceram jardins delas nasceram poemas delas nasceram vida de um coração morto nasce o amor

manto

fechei a janela da sala, o sol queria dizer-me olá mas eu não queria ver ninguém. deitei-me na cama e tapei-me com o cobertor até à cabeça, tal como fazia quando era criança e queria fugir dos monstros, ou quando era mais crescido e queria ficar a jogar até mais tarde. agora tapo-me para fugir do mundo, já que não posso fugir de mim mesmo.

epitáfio

no céu voam pássaros negros malfadados, as nuvens pesadas que carregam a tristeza do mundo pairam sobre a terra húmida de lágrimas e gritos. está ali o fim de tudo o que existe, deitado, como se de nada fosse o que o rodeia. tem um sorriso pequeno nos lábios. entre um olhar e outro se vê o desdém e a tristeza nas faces, entre um cumprimento e um adeus se vê a frieza nos olhos. cai a chuva sobre a madeira que repousa agora na terra, mãos cheias de nada agitam-se no ar em tom de adeus. a terra bate, a chuva lava, as palavras ecoam no mármore. dizem-se as últimas palavras a alguém que já não ouve, relembram-se diabruras infantis, viram-se as costas ao que agora é um passado. no fim somos todos bons, faremos sempre muita falta, pelo menos até chegarem a casa.

corpo

tens as mãos ásperas, dizes enquanto te seguro contra mim não pares, dizes enquanto te olho nos olhos ficas em silêncio, enquanto me perco nos teus lábios agridoce percorro o teu corpo como um carro desgovernado, deslizo pela tua pele macia como uma cobra faminta, saboreio-te juntos elevamo-nos ao êxtase, os lençóis molhados guardam o nosso gemido, a nossa pele guarda as marcas do desejo, e eu guardo-te em mim

prólogo

tenho páginas carregadas de tinta e lágrimas virgulas e pontos finais palavras agudas e esdrúxulas de uma outra vida tenho na pele lembranças e amuletos cravados a frio como o tempo tenho sentimentos perdidos por aí não existem palavras para explicar a vida que vivi gasto cigarros e músicas para não me esquecer, para me lembrar de que a vida é um primeiro passo