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A mostrar mensagens de outubro, 2017

A corrida

Vejo uma criança correr numa rua deserta ao fundo de mim, parece-me demasiado familiar. Corro também na sua direcção na esperança de a encontrar e de a salvar de algo que não sei se existe. A rua muda, as casas tornam-se negras, o céu também. A criança corre como se fosse uma gazela que corre nos campos africanos ao fugir de um leão faminto. Será que não vê que é perigoso para onde vai? A perseguição continua naquilo que parece ser um campo aberto, onde a chuva que ameaçava a rua, castiga agora o chão sujo de terra. Eu grito mas não me ouve, mas é tão familiar aquele correr, tento puxar por mim e quase que fico sem pulmões. Entramos numa linha de árvores de ramos despidos, numa passadeira de folhas mortas que não se manifestam ao nosso passar, como se fossemos vento. As árvores formam um túnel como um guia para o destino, ao passar a luz a criança ali está parada de costas, a um passo de um precipício, a um passo do nada e do tudo. Recupero o fôlego e junto-me a mim próprio, eu agora u...

Aquela bela manhã

Está uma bela manhã, chove a potes. Nos passeios circulam pequenos atletas olímpicos que tentam (muitas vezes em vão), evitar a todo o custo, toda e qualquer poça de água. Nas estradas os cavaleiros do asfalto tentam controlar a raiva matinal enquanto dominam as sua bestas de metal fundido. E eu aqui sentado, a ver este espectáculo digno de um Cirque du Solei, cheio de artistas, acrobatas e palhaços. As pessoas têm medo da chuva, a sério que têm. Nunca vi uma pessoa que assim que começasse a chover não perdesse completamente o norte, parece que a chuva interfere com os sentidos. Parecem crianças perdidas na floresta. Só lhes falta gritarem pelas mães enquanto o Sr. Guarda as tenta acalmar com um chupa-chupa.

Em breve morrerei

nasci para a desgraça como um rio que nasce seco passeei pelo deserto da vida como um vento solitário perdido depois da tempestade varri os destroços de uma viagem que não vivi vagueei somente os olhos pelos sorrisos dos de fora como quem partilha uma vida vivida num ecrã de tv não quero um adeus, quis um olá não quero lágrimas, quero rios não quero sofrimento, quero o nascer do sol em breve morrerei como uma folha seca caída de um ramo morto pisada por todos os que passam

Uma gaiola

Tenho uma gaiola em casa que não tem vida, comprei-a num acto de rebeldia quando ainda podia ser rebelde. Enchi-a de sonhos e esperanças e fechei-a numa sala de paredes vazias. Por vezes espreito para lá para dentro para ver se alguma coisa saiu, para ver se encontro vida naquelas paredes nuas. Mas não, as paredes estão mais escuras, mais velhas. E a gaiola torcida pelo tempo deixa cair folhas secas que se tornaram pó quando tocaram o chão.