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A mostrar mensagens de agosto, 2017

Mereço ser

Fugi por demasiado tempo das pessoas que me queriam bem, fugi com medo da boa vontade delas. Acobardei-me atrás do meu medo, fingi que não precisava de ninguém. Mas preciso. Não se vive sozinho durante muito tempo, por mais solitária que uma flor esteja num jardim, há sempre algo ou alguém à sua volta que a adora, que lhe quer bem. Durante a nossa vida somos ensinados a ser como o aço, fortes, resistentes, a carregar o mundo nos ombros sem vergar. Mas até o aço enferruja se não for cuidado. Escolhi acreditar nas palavras que a minha cabeça me alimentava como verdades absolutas, como um disco riscado repetindo sem fim, não mereces não mereces não mereces. A solidão não é bonita, não é boa, não faz bem. A solidão é obscena, suja e pesada. Pesada demais. Posso escolher recolher-me numa qualquer casa de vidro como um escaravelho exposto numa parede, posso escolher voltar ao buraco escuro de onde tento sair desesperadamente. Fui egoista, pensei nos outros antes de pensar em mim, como sempr...

Aqui jaz um sorriso

Deito-me no chão frio feito de medo, olho as estrelas à procura de um desejo sem sucesso. As manchas de café que ficaram da ultima vez que estivemos juntos, continuam ali na minha camisola, como um álbum de recordações. Sinto a terra a sugar-me, um abraço de escuridão e frieza reconfortante. O meu coração está vazio, tenho só as manchas para me lembrarem das coisas boas que passámos.  

Um palácio vazio

És um palácio vazio, onde apenas o vento e a solidão habitam, trazendo ocasionalmente visitas de vida pequena, que se vão ao sentir o ar pesado que debitas. Nascem pequenos jardins nas ranhuras das paredes, onde um dia sonhaste com imagens de luz e brilho que iluminariam o teu canto. Cobre-te um manto de pó e desespero, enquanto esperas como um relógio parado no tempo.

Nas asas

Leva-me o vento as palavras que debito como balas perdidas numa batalha de nadas A guerra de frases amorosas e gestos carinhosos que ficam como espólios As crianças que correm pelo campo de batalha, sozinhas, com fogo na lingua Escuta o ardor das labaredas que amam a madeira que lhes mata a fome Parecem corpos de amantes perdidos na noite fria entre vales de seda É uma guerra perdida esta de sentimentos absurdos, de falsas verdades Encostas-te à melancolia do tempo que se perde entre as frechas de luz que invade o quarto vazio Pernoitas nas lembranças do calor de alguém que partiu nas asas de uma gaivota

Conheci a cor da solidão

Cobre-me a pele a cor da solidão Negra e fria como uma noite sem luar Um manto de estrelas mortas que me pesam na alma Escorre-me pelos dedos moribundos Uso-te como tela virgem em que pinto a minha mágoa És a minha obra prima de dor e sofrimento Cobre-nos a pele a cor do nosso amor

Serei sempre quase

serei sempre quase feliz quase amado quase vivo perdi o rumo vagueio pelas luzes das estrelas pelo calor quente do sol faltou-me asas para levantar voo faltou-me a coragem de renascer faltou-me serei sempre quase alguém

Tenho medo de mim

Ode a Mário de Sá-Carneiro Tenho medo dos meus olhos Tenho medo de como eles parecem um poço sem fim Escorre-me a alma pelos poros Derramo a  vida pelos pulsos que corto com as penas que uso para escrever Mancho o papel com a chuva dos olhos Deixo as palavras navegar Rompem-me as cordas que me seguram o peito Sigo pela tempestade que me abala e afunda Pouso o coração numa balsa furada Enquanto o corpo se envolve numa dança lenta da morte que não chega Tenho medo de mim E das palavras que digo Procuro um porto seguro