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A mostrar mensagens de fevereiro, 2019

Pequenas desilusões

Sempre que alguém acorda de manhã, no meio dessa enormidade de corpos, está alguém que não queria acordar. Quando vais a um restaurante e pedes o teu prato favorito e 10 minutos depois tem vêm dizer que afinal já não teem. Quando pedes um café e te trazem um abatanado. Quando pensas que ainda podes dormir mais umas horas e afinal já estás atrasado. Quando pensas que é só uma bufa e borras-te todo. Quando pensas que encontraste alguém que gostas de ti. Quando pensas que vais ser feliz. Quando pensas que ainda tens chocolate mas afinal é só o papel. Quando vais a casa dos teus avós e a caixa de bolos está cheia de linhas e agulhas. Existe sempre espaço para mais uma pequena desilusão. Uma pequena perda. Um pequeno pedaço de nós que morre mais um pouquinho. Pequena desilusão deveria ser um novo género.

O pianista

Senta-se naquele pequeno banco escuro com assento em pele, afasta levemente quase como num movimento de dança o casaco para trás das costas. Olha as teclas de marfim, e nesse segundo tudo pára, e o marfim torna-se no seu pequeno mundo. Acaricia as teclas, sente um arrepio nas pontas dos dedos, como se toca-se na pele macia de uma mulher. E o amor sai-lhe da alma e atravessa o corpo até aos dedos, e os corações aquecem.

Montanha

A terra está molhada da chuva que tem caído nos últimos dias sem parar, em alguns sítios da montanha a terra ficou tão afogada que deslizou como se fosse feita de nada. Existe um cheiro hipnótico no ar, um cheiro a maresia terrena com leves notas de orvalho imaculado. Inspiro profundamente sempre que posso, quero aproveitar o ar livre ao máximo antes de avançar montanha dentro. Olho em volta e tudo está como que parado no tempo, ouvem-se os pássaros nas árvores e uma leve brisa que sopra de oeste. Aperto as fivelas e aperto as cintas da mochila, é uma mochila velha da tropa que comprei numa loja de velharias. Aperto os atacadores das botas e fecho o casaco, inspiro. Os primeiros passos são sempre os mais difíceis, enquanto o nosso corpo não se habitua ao peso que carregamos, e as nossas pernas ao caminho irregular. São 7 e 25 da manhã e a minha aventura começa agora. Dia #1 9:27 am Estou a caminhar à duas horas, vou fazer uma paragem parar comer e descansar as pernas. Pou...

Não importa mais

Nada do que se possa dizer vai trazer de volta as folhas caídas, As ondas perdidas, e as lágrimas salgadas secas na manga da camisa. Arrasto-te nas veias, como lâminas aguçadas. São essas palavras que me atravessam como balas dessa boca mortal, São as memórias que ficaram marcadas na pele, nos lençóis. Vejo as cores do mundo a esbaterem, Vejo o sentido a fugir, Vejo a vida coberta de terra, como um lençol frio. A comida já não tem sabor, insossa como água.