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A mostrar mensagens de setembro, 2020

grito com os olhos de quem já não sabe ser

chamo por ti na esperança que me ouças por entre o soprar do vento frio que vem do norte fico acordado durante a noite a tentar manter o teu calor na minha cama imagino-te no corpo de outro alguém as minhas mãos azuladas seguram o meu coração gelado no fundo da noite sinto o sabor salgado das lágrimas tenho medo  medo que não chegues a tempo  que não voltes desculpa se ainda sonho contigo por entre o murmúrio da cidade que vive eternamente grito com os olhos de quem já não sabe ser digo entre o silêncio do meu quarto  que um dia ainda te verei feliz talvez de longe mas feliz

Levanto o copo à montanha

Existe uma luz especial quando se olha a montanha ao fim do dia na varanda do hotel da vila. A última vez que aqui estive foi com o meu pai. Antes de ele morrer fez-me prometer-lhe que levaria as suas cinzas ao topo da montanha e que o deixaria lá a ver o nascer e o pôr do sol para sempre. Parece poético quando dito assim, sem se falar dos anos passados em agonia, com as sessões de radioterapia, as noites em branco sentado numa cadeira de hospital. Parece um poema irónico a morte de quem se ama.  O rádio toca como pano de fundo entre cigarros e whiskey barato da loja de conveniência . You're just too good to be true Can't take my eyes off of you You'd be like Heaven to touch I wanna hold you so much .... Disponho em cima da cama todo o material que acho necessário para subir a montanha. Na antiga mochila do exército que o meu pai me deu nos meus anos, vou levar tudo o que preciso e a ele também. A noite aparece depressa, parece ansiosa que chegue o amanhã para me ver carreg...

IV

a criação de alguém que não somos ajuda-nos a fingir algo que não sentimos a tristeza e o sentimento de culpa ajuda-nos a moldar a máscara que usamos os sonhos que tivemos e os que enterrámos para fingir que nunca existiram os pesadelos que vivem debaixo das unhas que roemos com angústia se alguém descobrir que eu não sou o queria ser aí nesse momento a minha existência cessa 

III

 quão triste é sentir que aquela pessoa com quem criámos momentos é agora apenas uma memória é amor querer dar tudo a quem está ali ao nosso lado sermos nós mesmo que não seja perfeito mas o amor verdadeiro não existe existe a ideia de amar  existe a acção de coexistir mas durante quanto tempo? nada é o que queremos que seja o amor não é eterno a felicidade dura um momento apenas para os poetas o mundo é e deverá ser amor

II

 estou cansado. cansado de dar aquilo que sou e não ficar com nada para mim. cansado de ter um vazio, de ver o mundo girar à minha volta enquanto eu estou estagnado no mesmo sítio. já perdi a conta às vezes que me deixei esgotar nas mãos de alguém. e eu? quando é que eu vou ter o meu tempo? quando é que vou conseguir parar e respirar fundo e sentir que faço parte das estações do ano. estou cansado e não tenho nenhum poiso meu. dizem que nunca estamos sós, mas é isso que eu quero, estar só. quero ser egoísta com o meu tempo e tê-lo todo para mim. quero atirar para um penhasco as cinzas desta monotonia que carrego nos braços, rasgar estas amarras que me impedem de pegar no carro e conduzir até não conseguir mais. tudo o que eu quero é ter tempo. 

I

quando era pequeno sonhava que um dia seria alguém, nada de mais, apenas alguém. enquanto fingia estar desmaiado no corredor da casa velha e uma donzela, com parecenças incríveis com aquela rapariga da minha turma de quem eu poderia ou não estar completamente apaixonado, se aproximava de mim e me salvava de uma morte inventada. brincar sozinho tinha destas coisas, imaginávamos que poderíamos ser felizes como nos filmes de sábado à tarde. depois crescemos e vemos o sangue a escorrer como lágrimas, o amor vira violência, a inocência vira prisão. o corredor serve agora para atravessar em dois passos uma infância inteira. crescer deixou de ser uma aventura para ser uma luta infindável com a correria do dia-a-dia. já não se pára para se ver nascer alguém, uma criança nascida agora tem mais responsabilidades do que um homem de meia idade que andou a pisar o mundo com os pés sujos de violência e ganância. tenho saudades de brincar sozinho e fingir ser feliz.