I
quando era pequeno sonhava que um dia seria alguém, nada de mais, apenas alguém. enquanto fingia estar desmaiado no corredor da casa velha e uma donzela, com parecenças incríveis com aquela rapariga da minha turma de quem eu poderia ou não estar completamente apaixonado, se aproximava de mim e me salvava de uma morte inventada. brincar sozinho tinha destas coisas, imaginávamos que poderíamos ser felizes como nos filmes de sábado à tarde. depois crescemos e vemos o sangue a escorrer como lágrimas, o amor vira violência, a inocência vira prisão. o corredor serve agora para atravessar em dois passos uma infância inteira. crescer deixou de ser uma aventura para ser uma luta infindável com a correria do dia-a-dia. já não se pára para se ver nascer alguém, uma criança nascida agora tem mais responsabilidades do que um homem de meia idade que andou a pisar o mundo com os pés sujos de violência e ganância. tenho saudades de brincar sozinho e fingir ser feliz.
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