não sei se te vejo amanhã
no chão da cozinha andam perdidos os passos que deste o arrastar das solas negras na tijoleira clara ainda se sente o cheiro das borras de café o cinzeiro carrega os restos mortais dos cigarros gastos nas noites calmas com as marcas do teu batom e o doce mel dos teus lábios lembro-me do calor da tua pele do sabor salgado do teu corpo depois de fazer-mos amor lembro-me dos teus olhos meigos de como me fazias sorrir só com o olhar ainda te vejo naquela cama de hospital quase invisível no meio dos lençóis brancos o burburinho do corredor os passos secos e apressados das enfermeiras sinto um nó na garganta tremem-me as mãos e a cadeira onde me sento treme comigo perco-me nos sussurros que ecoam na minha cabeça as vozes que gritam o teu nome cada vez mais alto sinto o sangue quente a escorrer no peito vazio cravo as unhas na pele morta não sei se te vejo amanhã mas amar-te-ei até ao infinito