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A mostrar mensagens de julho, 2020

não sei se te vejo amanhã

no chão da cozinha andam perdidos os passos que deste o arrastar das solas negras na tijoleira clara ainda se sente o cheiro das borras de café o cinzeiro carrega os restos mortais dos cigarros gastos nas noites calmas com as marcas do teu batom e o doce mel dos teus lábios lembro-me do calor da tua pele  do sabor salgado do teu corpo depois de fazer-mos amor lembro-me dos teus olhos meigos  de como me fazias sorrir só com o olhar ainda te vejo naquela cama de hospital quase invisível no meio dos lençóis brancos o burburinho do corredor os passos secos e apressados das enfermeiras sinto um nó na garganta tremem-me as mãos e a cadeira onde me sento treme comigo perco-me nos sussurros que ecoam na minha cabeça as vozes que gritam o teu nome cada vez mais alto sinto o sangue quente a escorrer no peito vazio cravo as unhas na pele morta não sei se te vejo amanhã mas amar-te-ei até ao infinito

ser

existe um vazio onde nos escondemos daquilo que fingimos ser, um lugar frio e pequeno.  sem janelas para o mundo.  é ali onde sustemos a respiração, onde as lágrimas que deitamos são só nossas.  onde o nosso coração não bate com medo de existir.  é ali, naquele recanto de nós próprios onde somos verdadeiramente nós.