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A mostrar mensagens de novembro, 2020

chave

tenho à minha frente uma porta uma porta de pedra com centenas de fechos e fechaduras do lado de lá ouço as vozes que chamam por mim encosto o ouvido na pedra gelada ouço o meu nome ouço o bater das mãos e os pedidos para entrar mas a porta não abre é demasiado pesada demasiado fechada e eu não sei como a abrir ouço o silêncio já não há ninguém  sento-me no chão e guardo a chave da porta no bolso

(feliz)

perguntam-me se sou feliz sei o que é a felicidade mas nunca a senti talvez tenha sentido alegria em um ou outro momento  talvez tenha até rido com vontade mas nunca fui feliz e isso é tão difícil acordar todos os dias e saber  que não saberei o que é ser feliz  tenho saudades de perder a noção do tempo de estar sem olhar o relógio e ver a luz a desvanecer de sair e aproveitar as pessoas à minha volta é difícil descrever o quão complicado é existir

b)

já não sei quanto de mim  está por aí perdido entre as ruelas mesas de café e copos de cerveja talvez ainda encontrem sombras de quem fui ao anoitecer com o nascer do sol que embate de fronte da minha janela que me afoga nessa luz forçada que me aquece como se fosse nada ouço o tic tac das vozes que me falam que me enlouquecem com as suas verdades sou os ponteiros de um relógio estragado mudem-me as pilhas ou dêem-me corda falo para as paredes e espero pacientemente que elas se dignem a dar-me uma resposta mas elas aproximam-se de mim e mesmo antes de me esmagarem o corpo débil sussurram-me ao ouvido coisas belas como o sorriso que a lua tem  

Encontro

Existe uma montra em frente ao banco de jardim onde me costumo sentar a fumar. Vejo a mesma mulher a limpar o pó que não despega das bijuterias, por entre os rostos familiares de quem sai do autocarro, por vezes entre a multidão, vê-se uma cara nova. Alguém que olha com desdém sem saber de onde vem nem para onde vai. Está a chover bastante e eu abrigo-me entre a umbreira do prédio em frente. Acendo um cigarro entre os dedos molhados, vejo os passos apressados de quem quer fugir do vendaval, de quem não tem guarda-chuva e de quem nem sabe o que é a chuva. Por entre o fumo e por entre os vultos, surge uma face desconhecida, não parece perdida, nem parece procurar seja o que for. Existe ali naquele momento como o cigarro que fumo. Como se a vida toda estivesse ali, naquele corpo que definha com o tempo. Olhamo-nos e por entre as sombras somos dois seres que vivem à margem da realidade dos outros. A chuva cai com mais força, o nosso olhar fixa-se um no outro. Não há palavras, nem gestos, a...