Existe uma montra em frente ao banco de jardim onde me costumo sentar a fumar. Vejo a mesma mulher a limpar o pó que não despega das bijuterias, por entre os rostos familiares de quem sai do autocarro, por vezes entre a multidão, vê-se uma cara nova. Alguém que olha com desdém sem saber de onde vem nem para onde vai. Está a chover bastante e eu abrigo-me entre a umbreira do prédio em frente. Acendo um cigarro entre os dedos molhados, vejo os passos apressados de quem quer fugir do vendaval, de quem não tem guarda-chuva e de quem nem sabe o que é a chuva. Por entre o fumo e por entre os vultos, surge uma face desconhecida, não parece perdida, nem parece procurar seja o que for. Existe ali naquele momento como o cigarro que fumo. Como se a vida toda estivesse ali, naquele corpo que definha com o tempo. Olhamo-nos e por entre as sombras somos dois seres que vivem à margem da realidade dos outros. A chuva cai com mais força, o nosso olhar fixa-se um no outro. Não há palavras, nem gestos, a...