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A mostrar mensagens de junho, 2018

Esquecer quem sou

Acordei sem saber quem era. Procurei no peito algo que tivesse o meu nome, o meu destino. Mas só havia pó. Pedi aos céus que me limpasse, que me enchesse de alguém, para voltar a ser. Mas nada. Nem um sinal. Nem uma tempestade. Pedi então aos homens que me dessem o que os céus me recusaram. Deram-me tristeza e a solidão. Quero deitar-me e esquecer quem sou.

Solstício de verão

Caiem as estrelas nesta noite fria de chuva intensa. Nas ruas correm gatos selvagens, como os invejo. Puder sentir as estrelas na pele, livre. No ar o cheiro da terra molhada que nos transporta para a infância. Acendo um cigarro. Vou queimando os minutos de uma vida estagnada por entre os dedos. Ao longe alguém ri, aqui chora-se ao ritmo da chuva. O fumo invade o ar à minha volta, numa nuvem quase mística de solstício de verão. Ouve-se Chet Baker. Bebe-se o luar. Vomita-se a vida. Queima-se a vontade de viver. É só mais uma noite. É só mais um delírio de um homem triste.

Um oceano

Tenho um oceano que me engole o corpo e que me deixa a alma à deriva. Já não flutuo. Sinto o fundo com as pontas dos dedos na esperança de encontrar uma âncora abandonada de uma infância afogada à muito. Sou arrastado pela força da água enquanto rasgo os dedos nos fragmentos de uma outra vida, de uma outra esperança perdida.

Flores de Verão

Crescem soltas nas pedras da calçada, flores de Verão. Corajosas flores sem medo das solas de quem passa. Corajosa flor de alma inteira, de caule desfeito, de raiz profunda.

🏠

Sou casa partilhada com a devastação das horas que passam, e eu ainda estou de pé. Sou o chão que pisaram, sou a infâmia dos leitos rasgados que um dia susteram amor. Sou vazio no meio de tanto. Sou inteiro na solidão que me deixaram. Tenho as paredes cheias de nada, descascadas como fruta de verão. Resta me a saudade, essa mítica tortura de um passado desfeito em lágrimas de sangue.