Saborear o vento
Pesam as horas nos ponteiros de um relógio partido. Caiem cascatas de sentimentos aglomerados nas entranhas de um peito cheio. O brilho dos olhos que desvanece lentamente, pausadamente, como uma labareda que se extingue à chuva. As folhas do livro da vida, aguçadas como lâminas, que cortam as pontas dos dedos que as folheiam. Cicatrizes carnais que formam um ser, alguém. Poesia que escorre como um oceano dos olhos sem vida. Libertam-se as correntes, ficam para trás as âncoras que nos prendem a este chão morto. Rasteja-se como cobras num deserto, deixando o rasto da passagem na areia escaldante. Ouve-se o mar ao longe. Sente-se o cheiro da maresia. Saboreia-se o vento.