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A mostrar mensagens de janeiro, 2019

Saborear o vento

Pesam as horas nos ponteiros de um relógio partido. Caiem cascatas de sentimentos aglomerados nas entranhas de um peito cheio. O brilho dos olhos que desvanece lentamente, pausadamente, como uma labareda que se extingue à chuva. As folhas do livro da vida, aguçadas como lâminas, que cortam as pontas dos dedos que as folheiam. Cicatrizes carnais que formam um ser, alguém. Poesia que escorre como um oceano dos olhos sem vida. Libertam-se as correntes, ficam para trás as âncoras que nos prendem a este chão morto. Rasteja-se como cobras num deserto, deixando o rasto da passagem na areia escaldante. Ouve-se o mar ao longe. Sente-se o cheiro da maresia. Saboreia-se o vento.

Somos todos um bocadinho racistas

Numa qualquer altura da nossa vida todos nós tivemos pensamentos de natureza racista, tenham sido pensamentos passageiros ou marcas que ficaram de alguma experiência má. Portugal é um país que tem racismo. Basta lermos alguns dos comentários que circulam nas redes sociais, nos comentários de café, nas atitudes do dia-a-dia de algumas pessoas, para percebermos que o racismo ainda existe e resiste. Muito deste racismo vem de pessoas que se consideram inteligentes e cultas, não percebendo que não o são. Portugal é e sempre foi um país de remorsos e culpas, um aglomerado de pessoas que culpam outras pelos seus problemas ou pelos problemas do país. Lembranças de uma guerra que ficaram cravadas a fogo numa geração que prime pela intolerância. A educação retrógrada passada de geração em geração. Somos culpados pela marginalização das massas, aceitamos algumas "raças" porque nos convém. Apontamos o dedo e generalizamos um grupo de pessoas que é vítima do sistema que nós constr...

Emancipei-me

Descende dos céus a emancipação do próprio ser, via divina ou do vizinho de cima que tem a mania de atirar lixo pela janela. Seja como for, emancipei-me da desgraça alheia. Já que estou preso à minha, os outros que carreguem com a sua própria valência. Diz-se por aí, que temos de ser uns para os outros, isso até é muito bonito, mas não quando somos para todos e ninguém é para nós. Apliquem-se na vossa vida e vejam se vale mesmo a pena andar por aí a arrastarem os olhos no chão, tal cãozinho abandonado em pleno verão pela "família" maravilhosa que tinha. Se formos a ver bem as coisas, há efectivamente quem esteja bem pior que nós. Estamos todos a caminhar para o dito dia de finados, mas há quem já lá esteja, no jardim das tabuletas. Existe igualmente quem não saiba se vai ter um prato de comida para comer, uma cama para dormir ou apenas um cobertor para se proteger do frio. Sejamos singelos com a vida que temos, cantem, riam, sorriam, façam sorrir. Mas acima de tudo,...

Morfologia do eu

Sendo cabeça, dura e de raiz grave, de movimentos arquetípicos de louco. Tronco deformado por má relação com os desejos de peito. Braços mesquinhos por má gestão de quantidade. Virilha típica de almofariz isotrópico. Pernas oriundas quiçá da Bairrada. Coração com defeito de fabrico. Mas um gajo impecável.

Pele rançosa

Caiem despavoridas lágrimas de um rosto vestido de mentira. Escorrem pela pele rançosa de encontro ao peito nu de alguém que não ouve, não vê e não sente. No chão frio ficam as manchas da tempestade, na cama o calor perde-se a cada segundo que passa. O corpo nu diverge da realidade, veste-se e sai. Para trás ficam palavras perdidas, pequenos sorrisos, pequenos sonhos. Tudo demasiado pequeno, até o sentimento. Passam estagnadas, horas, dias, meses, minutos, segundos, tudo passa. Procura-se na memória perdida no universo de vida uma razão, não há, nunca houve. É borbulhante a vida, como um copo de champanhe deixado ao luar numa noite de verão escaldante. Vive-se agora, no agora, no instante, no momento em que se inspira e expira. Sente-se o vento frio nas pontas dos dedos, sente-se. Sorri o peito vestido, ouve, vê e sente, tal qual gente.

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada

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Quem me dera que eu fosse o pó da estrada E que os pés dos pobres me estivessem pisando... Quem me dera que eu fosse os rios que correm E que as lavadeiras estivessem à minha beira... Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio E tivesse só o céu por cima e a água por baixo... Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro E que ele me batesse e me estimasse... Antes isso que ser o que atravessa a vida Olhando para trás de si e tendo pena... “O Guardador de Rebanhos”. In  Poemas de Alberto Caeiro -  Fernando Pessoa

Pára-me de Repente o Pensamento

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Pára-me de repente o pensamento  Como que de repente refreado  Na doida correria em que levado  Ia em busca da paz, do esquecimento...  Pára surpreso, escrutador, atento,  Como pára m cavalo alucinado  Ante um abismo súbito rasgado...  Pára e fica e demora-se um momento.  Pára e fica na doida correria...  Pára à beira do abismo e se demora  E mergulha na noite escura e fria  Um olhar de aço que essa noite explora...  Mas a espora da dor seu flanco estria  E ele galga e prossegue sob a espora.  Ângelo de Lima, in 'Antologia Poética'  

Alma que da minh'alma se aproxima

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Alma que da minh'alma se aproxima E me desperta do meu sonho em meio E nos prenda e nos cinja o doce enleio Como a dois lírios prende e enlaça um vime. E assim desta existência que me oprime Pois que já n'ela achar o Bem não creio Vamos subamos lado a lado ao seio Infinito do Deus Calmo e Sublime! in  Poesias Completas Ângelo de Lima

Nascemos para o sono

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Nascemos para o sono, nascemos para o sonho. Não foi para viver que viemos sobre a terra. Breve apenas seremos erva que reverdece: verdes os corações e as pétalas estendidas. Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal. (Poesia mexicana do ciclo Nauatle)