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A mostrar mensagens de novembro, 2017

Acender o fósforo

Acende-se um fósforo, segura-se entre os dedos amarelados pelo fumo de uma vida inteira, dedos calejados, doridos, rijos como pedra. Na boca uma beata de alguém que provavelmente com pressa atirou para o chão. Sentado está com a face suja, roupas velhas igualmente deslavadas que sobrevivem com o corpo que tapam. Olha o infinito, olha como quem espera ver algo de novo, olha como se a vida inteira já lhe tivesse passado à frente dos olhos, não uma, não duas, mas sempre que o fósforo se acende. O cheiro que emana como balas de uma arma invisível, afasta as pessoas demasiado pudicas que têm medo de se sentar ao lado da vida.

Tempestades

Existem dias em que parece que chove, mas na verdade estamos a chorar na alma. De tão pesada que fica que se assemelha a um tsunami de ideias parvas, sonhos desfeitos por nós próprios e a ridícula ideia de que ninguém nos ama.  Hoje é um desses dias.  Sinto o peso do mundo nos ombros enquanto me escorre a alma pela face, procuro um apoio nalguma coisa em que me possa servir de arma de arremesso. Sinto um calafrio na costas, mesmo no lugar onde aquela lâmina de palavras entrou e se retorceu até não conseguir mais. Parecem trovões saídos da boca de Zeus, mas não passam de borrifos de um corpo outrora cheio, e agora vazio de razão. As tempestades vêm e vão, mas a destruição que deixam pelo caminho marcam para sempre. São cicatrizes que carregamos num peito já calejado, já doente, já frio.  Somos árvores fustigadas pelo tempo, mas permanecemos de pé.

Flutuo

Acordo de olhos fechados. A vida levanta-me do meu nicho como se eu tivesse asas. Leva-me para longe de onde eu quero estar. E enquanto flutuo no meio da floresta que se ergue à minha volta, sou chocalhado, como um boneco de peluche nas mãos inocentes de uma criança, ou na boca visceral de um cão.

Pegadas

Caminho na praia, deixo o som das ondas neste dia cinzento serem a minha música de fundo. Na areia deixo as memórias que já não preciso, que já não quero ter. Vejo o mar levá-las com ele, como se de um presente envenenado se tratasse. Vejo a água recuar, como um gigante que carrega o mundo de outro nas costas. Oiço as gaivotas que riem de mim, pois sabem que as pegadas ainda estão na areia.