Levanto o copo à montanha

Existe uma luz especial quando se olha a montanha ao fim do dia na varanda do hotel da vila. A última vez que aqui estive foi com o meu pai. Antes de ele morrer fez-me prometer-lhe que levaria as suas cinzas ao topo da montanha e que o deixaria lá a ver o nascer e o pôr do sol para sempre. Parece poético quando dito assim, sem se falar dos anos passados em agonia, com as sessões de radioterapia, as noites em branco sentado numa cadeira de hospital. Parece um poema irónico a morte de quem se ama. 

O rádio toca como pano de fundo entre cigarros e whiskey barato da loja de conveniência.

You're just too good to be true
Can't take my eyes off of you
You'd be like Heaven to touch
I wanna hold you so much
....

Disponho em cima da cama todo o material que acho necessário para subir a montanha. Na antiga mochila do exército que o meu pai me deu nos meus anos, vou levar tudo o que preciso e a ele também. A noite aparece depressa, parece ansiosa que chegue o amanhã para me ver carregar o meu pai colina acima. 

Mais um copo duplo para me ajudar a sonhar com o sol que poderia estar a apreciar em casa. 

Levanto o copo à montanha. 

À tua meu velho.

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