Montanha
A terra está molhada da chuva que tem caído nos últimos dias
sem parar, em alguns sítios da montanha a terra ficou tão afogada que deslizou
como se fosse feita de nada. Existe um cheiro hipnótico no ar, um cheiro a
maresia terrena com leves notas de orvalho imaculado. Inspiro profundamente
sempre que posso, quero aproveitar o ar livre ao máximo antes de avançar
montanha dentro. Olho em volta e tudo está como que parado no tempo, ouvem-se
os pássaros nas árvores e uma leve brisa que sopra de oeste. Aperto as fivelas
e aperto as cintas da mochila, é uma mochila velha da tropa que comprei numa
loja de velharias. Aperto os atacadores das botas e fecho o casaco, inspiro. Os
primeiros passos são sempre os mais difíceis, enquanto o nosso corpo não se
habitua ao peso que carregamos, e as nossas pernas ao caminho irregular. São 7
e 25 da manhã e a minha aventura começa agora.
Dia #1
9:27 am
Estou a caminhar à duas horas, vou fazer uma paragem parar
comer e descansar as pernas. Pouso a mochila num tronco partido que está
sozinho numa clareira. Abro o saco com a carne seca que fiz no verão e abro uma
das garrafas de água. O céu está limpo por enquanto, não há sinais de nuvens.
Se tudo correr bem vou conseguir chegar a meio da montanha ao cair da noite.
7:12 pm
Cheguei a uma clareira quase a meio da montanha, espero eu.
Não consigo ver muito mais que uns 5 metros à minha frente, o nevoeiro que caiu
ao fim da tarde tem-me dificultado a subida. Vou montar acampamento por aqui,
tentar montar umas armadilhas para esquilos e esperar que o jantar me caia de
uma qualquer árvore.
11:01 pm
Consegui a muito custo montar a tenda neste chão incoerente
de ervas e folhas de árvores mortas. Lá fora ouvem-se ruídos animalescos, uivos
e passos. Talvez não sejam passos, talvez seja o vento, espero que seja só
isso, o vento. Não consigo adormecer. Retiro do fundo da mala a lata de café e
a garrafa de whiskey. Pode ser que assim consiga dormir, agarrado a ela e à
garrafa.
(continua...)
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