Mereço ser
Fugi por demasiado tempo das pessoas
que me queriam bem, fugi com medo da boa vontade delas. Acobardei-me
atrás do meu medo, fingi que não precisava de ninguém. Mas
preciso. Não se vive sozinho durante muito tempo, por mais solitária
que uma flor esteja num jardim, há sempre algo ou alguém à sua
volta que a adora, que lhe quer bem. Durante a nossa vida somos
ensinados a ser como o aço, fortes, resistentes, a carregar o mundo
nos ombros sem vergar. Mas até o aço enferruja se não for cuidado.
Escolhi acreditar nas palavras que a minha cabeça me alimentava como
verdades absolutas, como um disco riscado repetindo sem fim, não
mereces não mereces não mereces. A solidão não é bonita, não é
boa, não faz bem. A solidão é obscena, suja e pesada. Pesada
demais. Posso escolher recolher-me numa qualquer casa de vidro como
um escaravelho exposto numa parede, posso escolher voltar ao buraco
escuro de onde tento sair desesperadamente. Fui egoista, pensei nos
outros antes de pensar em mim, como sempre. Tenho medo que a minha
identidade e a dos meus amigos um dia se torne apenas uma memória
arrastada pelo vento. Por vezes sinto-me nada, sinto-me como a cinza
deixada por uma fogueira que matou a minha mente. Sinto-me sujo de
solidão no meio de tanta gente que passa por mim. Grito sem fazer
barulho, grito com os olhos fechados para que ninguém me ouça. O
meu sorriso é como uma tela pintada pela mão de um louco, uma
mentira encoberta de arte. Sou um espelho partido, sou o azar que ele
representa. Ou serei apenas um borrão de vida. Apetece-me gritar,
mas não posso. Tapo a boca com a tela. Apetece-me chorar, mas não
posso. Rego jardins mortos que trago no peito.
Posso criar o meu próprio fim, alguma
coisa que me faça fechar os olhos e sorrir, sorrir verdadeiramente.
Mas não vou desistir de escalar o buraco. Não posso esquecer que eu
também mereço ser mais que uma memória, mais que um breve quase
inexistente sussurro.
Tenho saudades de quem gosta de
mim, de gostar de mim.
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