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Mãos vazias

Trago nas linhas que me atravessam o corpo invisíveis os sonhos de outrora, as memórias de sempre, e a vontade de viver penduradas. Trago vazias as mãos que uso para não deixar cair nada e estilhaçar-se novamente. Na ponta da língua trago o discurso gravado a fogo; está tudo bem. Tenho rios que correm de norte a sul, que arrastam tudo pelo caminho. Pouco tenho que me resta desta vida, senão as finas linhas que carrego. Cabeça cheia. E as mãos vazias.

Esquecer quem sou

Acordei sem saber quem era. Procurei no peito algo que tivesse o meu nome, o meu destino. Mas só havia pó. Pedi aos céus que me limpasse, que me enchesse de alguém, para voltar a ser. Mas nada. Nem um sinal. Nem uma tempestade. Pedi então aos homens que me dessem o que os céus me recusaram. Deram-me tristeza e a solidão. Quero deitar-me e esquecer quem sou.

Flores de Verão

Crescem soltas nas pedras da calçada, flores de Verão. Corajosas flores sem medo das solas de quem passa. Corajosa flor de alma inteira, de caule desfeito, de raiz profunda.

🏠

Sou casa partilhada com a devastação das horas que passam, e eu ainda estou de pé. Sou o chão que pisaram, sou a infâmia dos leitos rasgados que um dia susteram amor. Sou vazio no meio de tanto. Sou inteiro na solidão que me deixaram. Tenho as paredes cheias de nada, descascadas como fruta de verão. Resta me a saudade, essa mítica tortura de um passado desfeito em lágrimas de sangue.

Serei habitação

Da minha casa derrubada restam apenas as pedras que deixaram para trás. De mim levaram-me tudo, deixaram-me a alma despida. Das pedras edificarei uma outra vida, renovada a partir dos destroços. Vestirei o sol, respirarei o luar. Serei de novo habitação.

Acender o fósforo

Acende-se um fósforo, segura-se entre os dedos amarelados pelo fumo de uma vida inteira, dedos calejados, doridos, rijos como pedra. Na boca uma beata de alguém que provavelmente com pressa atirou para o chão. Sentado está com a face suja, roupas velhas igualmente deslavadas que sobrevivem com o corpo que tapam. Olha o infinito, olha como quem espera ver algo de novo, olha como se a vida inteira já lhe tivesse passado à frente dos olhos, não uma, não duas, mas sempre que o fósforo se acende. O cheiro que emana como balas de uma arma invisível, afasta as pessoas demasiado pudicas que têm medo de se sentar ao lado da vida.

Tempestades

Existem dias em que parece que chove, mas na verdade estamos a chorar na alma. De tão pesada que fica que se assemelha a um tsunami de ideias parvas, sonhos desfeitos por nós próprios e a ridícula ideia de que ninguém nos ama.  Hoje é um desses dias.  Sinto o peso do mundo nos ombros enquanto me escorre a alma pela face, procuro um apoio nalguma coisa em que me possa servir de arma de arremesso. Sinto um calafrio na costas, mesmo no lugar onde aquela lâmina de palavras entrou e se retorceu até não conseguir mais. Parecem trovões saídos da boca de Zeus, mas não passam de borrifos de um corpo outrora cheio, e agora vazio de razão. As tempestades vêm e vão, mas a destruição que deixam pelo caminho marcam para sempre. São cicatrizes que carregamos num peito já calejado, já doente, já frio.  Somos árvores fustigadas pelo tempo, mas permanecemos de pé.

Flutuo

Acordo de olhos fechados. A vida levanta-me do meu nicho como se eu tivesse asas. Leva-me para longe de onde eu quero estar. E enquanto flutuo no meio da floresta que se ergue à minha volta, sou chocalhado, como um boneco de peluche nas mãos inocentes de uma criança, ou na boca visceral de um cão.

Pegadas

Caminho na praia, deixo o som das ondas neste dia cinzento serem a minha música de fundo. Na areia deixo as memórias que já não preciso, que já não quero ter. Vejo o mar levá-las com ele, como se de um presente envenenado se tratasse. Vejo a água recuar, como um gigante que carrega o mundo de outro nas costas. Oiço as gaivotas que riem de mim, pois sabem que as pegadas ainda estão na areia.  

A corrida

Vejo uma criança correr numa rua deserta ao fundo de mim, parece-me demasiado familiar. Corro também na sua direcção na esperança de a encontrar e de a salvar de algo que não sei se existe. A rua muda, as casas tornam-se negras, o céu também. A criança corre como se fosse uma gazela que corre nos campos africanos ao fugir de um leão faminto. Será que não vê que é perigoso para onde vai? A perseguição continua naquilo que parece ser um campo aberto, onde a chuva que ameaçava a rua, castiga agora o chão sujo de terra. Eu grito mas não me ouve, mas é tão familiar aquele correr, tento puxar por mim e quase que fico sem pulmões. Entramos numa linha de árvores de ramos despidos, numa passadeira de folhas mortas que não se manifestam ao nosso passar, como se fossemos vento. As árvores formam um túnel como um guia para o destino, ao passar a luz a criança ali está parada de costas, a um passo de um precipício, a um passo do nada e do tudo. Recupero o fôlego e junto-me a mim próprio, eu agora u...

Aquela bela manhã

Está uma bela manhã, chove a potes. Nos passeios circulam pequenos atletas olímpicos que tentam (muitas vezes em vão), evitar a todo o custo, toda e qualquer poça de água. Nas estradas os cavaleiros do asfalto tentam controlar a raiva matinal enquanto dominam as sua bestas de metal fundido. E eu aqui sentado, a ver este espectáculo digno de um Cirque du Solei, cheio de artistas, acrobatas e palhaços. As pessoas têm medo da chuva, a sério que têm. Nunca vi uma pessoa que assim que começasse a chover não perdesse completamente o norte, parece que a chuva interfere com os sentidos. Parecem crianças perdidas na floresta. Só lhes falta gritarem pelas mães enquanto o Sr. Guarda as tenta acalmar com um chupa-chupa.

Em breve morrerei

nasci para a desgraça como um rio que nasce seco passeei pelo deserto da vida como um vento solitário perdido depois da tempestade varri os destroços de uma viagem que não vivi vagueei somente os olhos pelos sorrisos dos de fora como quem partilha uma vida vivida num ecrã de tv não quero um adeus, quis um olá não quero lágrimas, quero rios não quero sofrimento, quero o nascer do sol em breve morrerei como uma folha seca caída de um ramo morto pisada por todos os que passam

Uma gaiola

Tenho uma gaiola em casa que não tem vida, comprei-a num acto de rebeldia quando ainda podia ser rebelde. Enchi-a de sonhos e esperanças e fechei-a numa sala de paredes vazias. Por vezes espreito para lá para dentro para ver se alguma coisa saiu, para ver se encontro vida naquelas paredes nuas. Mas não, as paredes estão mais escuras, mais velhas. E a gaiola torcida pelo tempo deixa cair folhas secas que se tornaram pó quando tocaram o chão.  

Mereço ser

Fugi por demasiado tempo das pessoas que me queriam bem, fugi com medo da boa vontade delas. Acobardei-me atrás do meu medo, fingi que não precisava de ninguém. Mas preciso. Não se vive sozinho durante muito tempo, por mais solitária que uma flor esteja num jardim, há sempre algo ou alguém à sua volta que a adora, que lhe quer bem. Durante a nossa vida somos ensinados a ser como o aço, fortes, resistentes, a carregar o mundo nos ombros sem vergar. Mas até o aço enferruja se não for cuidado. Escolhi acreditar nas palavras que a minha cabeça me alimentava como verdades absolutas, como um disco riscado repetindo sem fim, não mereces não mereces não mereces. A solidão não é bonita, não é boa, não faz bem. A solidão é obscena, suja e pesada. Pesada demais. Posso escolher recolher-me numa qualquer casa de vidro como um escaravelho exposto numa parede, posso escolher voltar ao buraco escuro de onde tento sair desesperadamente. Fui egoista, pensei nos outros antes de pensar em mim, como sempr...

Aqui jaz um sorriso

Deito-me no chão frio feito de medo, olho as estrelas à procura de um desejo sem sucesso. As manchas de café que ficaram da ultima vez que estivemos juntos, continuam ali na minha camisola, como um álbum de recordações. Sinto a terra a sugar-me, um abraço de escuridão e frieza reconfortante. O meu coração está vazio, tenho só as manchas para me lembrarem das coisas boas que passámos.  

Um palácio vazio

És um palácio vazio, onde apenas o vento e a solidão habitam, trazendo ocasionalmente visitas de vida pequena, que se vão ao sentir o ar pesado que debitas. Nascem pequenos jardins nas ranhuras das paredes, onde um dia sonhaste com imagens de luz e brilho que iluminariam o teu canto. Cobre-te um manto de pó e desespero, enquanto esperas como um relógio parado no tempo.

Nas asas

Leva-me o vento as palavras que debito como balas perdidas numa batalha de nadas A guerra de frases amorosas e gestos carinhosos que ficam como espólios As crianças que correm pelo campo de batalha, sozinhas, com fogo na lingua Escuta o ardor das labaredas que amam a madeira que lhes mata a fome Parecem corpos de amantes perdidos na noite fria entre vales de seda É uma guerra perdida esta de sentimentos absurdos, de falsas verdades Encostas-te à melancolia do tempo que se perde entre as frechas de luz que invade o quarto vazio Pernoitas nas lembranças do calor de alguém que partiu nas asas de uma gaivota

Conheci a cor da solidão

Cobre-me a pele a cor da solidão Negra e fria como uma noite sem luar Um manto de estrelas mortas que me pesam na alma Escorre-me pelos dedos moribundos Uso-te como tela virgem em que pinto a minha mágoa És a minha obra prima de dor e sofrimento Cobre-nos a pele a cor do nosso amor

Serei sempre quase

serei sempre quase feliz quase amado quase vivo perdi o rumo vagueio pelas luzes das estrelas pelo calor quente do sol faltou-me asas para levantar voo faltou-me a coragem de renascer faltou-me serei sempre quase alguém