a criança que corre
Vejo uma
criança correr numa rua deserta ao fundo de mim, parece-me demasiado familiar.
Corro também na sua direcção na esperança de a encontrar e de a salvar de algo
que não sei se existe. A rua muda, as casas tornam-se negras, o céu também. A
criança corre como se fosse uma gazela que corre nos campos africanos ao fugir
de um leão faminto. Será que não vê que é perigoso para onde vai? A perseguição
continua naquilo que parece ser um campo aberto, onde a chuva que ameaçava a
rua, castiga agora o chão sujo de terra. Eu grito mas não me ouve, mas é tão
familiar aquele correr, tento puxar por mim e quase que fico sem pulmões.
Entramos numa linha de árvores de ramos despidos, numa passadeira de folhas
mortas que não se manifestam ao nosso passar, como se fossemos vento. As
árvores formam um túnel como um guia para o destino, ao passar a luz a criança
ali está parada de costas, a um passo de um precipício, a um passo do nada e do
tudo. Recupero o fôlego e junto-me a mim próprio, eu agora um pouco mais alto
apenas daquilo que eu era quando corri para o mesmo sítio. Agora estou sozinho,
e tenho um passo para dar. Ou esperar para que eu chegue, um pouco mais velho,
mais sábio.
Comentários
Enviar um comentário