tapar o vazio do mundo

Existe uma vela acesa no fundo daquele quarto escuro. 
A luz boreal que emite parece trazer de volta a vida que um dia existiu dentro daquelas quatro paredes. 
O chão range a cada passo e  arrasta consigo as memórias. No centro está uma cadeira coberta com um lençol de um branco esbatido pelo tempo. 
As janelas fechadas criam um ar pesado, um bafo visceral de carne podre. 
Quanto mais se aproxima da cadeira mais difícil se torna respirar. 
Tenta tapar o nariz, respirar somente pela boca mas torna-se numa missão quase impossível. 
A poucos centímetros nota-se uma silhueta fantasmagórica na cadeira, o lençol torna a imagem ainda mais pesada. 
Estica o braço lentamente, o coração salta no peito as veias parecem pistas de corrida onde o sangue se torna num turbilhão fervente. 
A mão treme, os braços e as pernas fraquejam e na ponta dos dedos corre a electricidade estática de um corpo em corrupio.

O chão estremece e a vida é engolida num rodopio de sangue e fogo e tudo se desfaz à sua volta.
E o lençol cai levemente no chão sujo e a cadeira vazia baloiça pesadamente.
O tempo pára e o silêncio torna-se ensurdecedor.
De joelhos no chão frio e mãos nos ouvidos a tapar o vazio do mundo.


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