o condenado

Ao abrir os olhos sinto a dor de uma luz que me queima as pálpebras.
Ouço o burburinho das pessoas que falam no corredor.
Sobe-me pela espinha uma dor aguda e um calafrio.
O colchão de palha moída numa cama de ferro maciço magoa-me as costas, as pernas, a cabeça e a alma. Hoje é um dia especial, cada vez que inspiro encho o peito até não puder mais, como quem enche o peito de vida, e quando expiro, faço-o devagar, aproveitando cada centímetro cúbico dessa mesma vida que me resta. Aproveito a calma antes da tempestade para cravar o meu nome nas pedras negras da parede, junto a tantos outros nomes que por aqui passaram. Serei apenas mais um nome numa parede de pedra que um dia será esquecida.
Ouço passos, a porta abre-se devagar, entra um homem de batina preta e colarinho branco, atrás dele um homem alto de farda escura e semblante fechado.
Sentamo-nos na beira da cama, lado a lado em silêncio. 
O pequeno livro negro que traz na mão com uma cruz dourada na capa leva-me de volta à infância, de volta ao pesadelo.
Crescer numa casa onde a falta de crença era um pecado quase capital, faz-nos de couraça dura para o mundo espiritual e para a vida. Talvez seja por isso que aqui estou agora, talvez tenham sido as tareias de chibata que o Sr. Reverendo, meu pai, fazia questão de me dar. Ou talvez tenha sido pelo facto de a senhora minha mãe não dizer uma única palavra para impedir tal educação paternal. Provavelmente terá sido das más escolhas que fiz depois de ter fugido de casa.

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