o poeta

Estou sentado na sala de espera à espera de ser chamado para mais uma consulta, ao meu lado está sentado um homem de meia idade, bem vestido de cabelo branco. Na mão traz um caderno cheio de palavras sem sentido para mim, datas, nomes, palavras soltas. Extremamente bem educado anuncia aos que o rodeiam que é o seu aniversário, foi almoçar com os sobrinhos por isso é que está assim tão bem vestido. Diz que é poeta, esquizofrénico, actor, sentimentalista e sozinho.
Os olhos gritam enquanto os lábios sorriem.
Diz muitas vezes obrigado, fazem-lhe muitas perguntas ao qual responde prontamente com tal suavidade que parece um rio calmo.
Tiro da mochila o meu caderno de rabiscos, todo o poeta ou escritor que se preze tem sempre um consigo não é, mas eu não sou poeta nem escritor, invento frases sem sentido nenhum que espero que façam sentido a alguém. Escrevo no papel: "Dizem que os poetas são eternos. Que vivem para sempre nas palavras que deixam escritas. Que seja poeta. Que seja eterno. Que seja."
Vem uma rapariga nova que chama pelo meu nome, levanto-me e peço um momento, olho aquele poeta esquizofrénico nos olhos, com um sorriso olha-me de volta, entrego-lhe o papel dobrado ao meio, "Um presente de aniversário, que seja feliz". Por momentos os olhos daquele homem deixam de gritar e olham-me com gratidão, com um simples sorriso aperta-me a mão e agradece, "Muito obrigado meu amigo, muito obrigado". Sigo a rapariga pelo corredor até ao gabinete. No fim da consulta saio do hospital e entro na noite escura, fecho os olhos e respiro fundo. Vivo num mundo com um poeta, esquizofrénico, actor, sentimentalista que já não se sente tão só. Pelo menos espero que não.

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