flor cor de sangue

sinto a pele quente, sinto o respirar, consigo ouvir o sangue a correr nas veias.
sinto os cabelos a crescer, sinto os ossos a ranger, sinto o sal na boca.
sinto a areia fria na ponta dos dedos, sinto a maresia a cobrir-me o corpo.
sinto as estrelas, sinto o luar, sinto o mundo inteiro.

não te sinto a ti, não sinto mais a tua pele, não sinto o bater do teu coração sincronizado com o meu.
não sinto o teu suor no meu corpo, não sinto os teus lábios nos meus.
sinto tanto e nada ao mesmo tempo.

ouço o mar a chamar por mim, ouço o teu riso ao longe, ouço o bater de asas das gaivotas.
arrasto o corpo, arrasto os olhos e as mãos sobre mim próprio na esperança de sentir ainda alguma réstia do teu calor.
rasgo a pele com as unhas cravadas no meu peito, quero tirar de mim o que te quis dar por inteiro.
quero que o leves, leva-o, toma é teu este pedaço de vida desfeito. leva-o.

enterra-o num jardim morto, no meio das rochas ou debaixo de um soalho.
dele nascerá uma flor cor de sangue, será a mais bela de todas.
o amor que nasce de algo morto vive para sempre.

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