pássaros

passam dias inteiros a olhar o mundo através de um ecrã,
vivem numa realidade fictícia, onde são o que querem, quem querem.
lá fora nasce o sol despercebido, banhado por nuvens de algodão doce,
ouve-se o bater dos corações fechados em gaiolas invisíveis.
atravessam o céu pássaros de papel de várias cores,
existe uma cortesia singular onde a existência é cedida por gentileza.
longe de onde se sonha com olhos abertos, caiem lágrimas sobre o pó,
sobre o carvão ainda quente, sobre caixas de madeira mágicas.
o mar deixa navegar barcos de papel coloridos por crianças grandes,
cheios de ideias luminosas e atitudes reprováveis.
no ar passeiam os ventos solidários, que trazem cheiros para a degustação da infância.
na cabeça gritam pássaros na escuridão, abrem-se os olhos para se acalmar os ninhos,
na cabeça jaz o silêncio, na boca o sabor amargo da saudade de alguém.
assim se vive, como qualquer rabisco numa tela virgem.

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