apenas e só

dói-me o corpo
dói-me o peito
sento-me à beira da cama
rastejo os pés nus pela carpete rija
chego à casa de banho e paro em frente ao espelho

olho-me
vejo o amarelo da pele seca
as maçãs do rosto encovado
o cabelo curto cortado de olhos fechados
os dentes podres
sangue seco nos cantos da boca

levanto os dedos das minhas mãos trémulas
e toco no que resta de mim
sinto a pele gelada
sinto os ossos a perfurarem esta máscara de carne
sinto a fragilidade humana

balanço até à banheira e abro a torneira
devagar enterro o corpo em água quente
tremo
mergulho a cabeça de olhos abertos
vejo o ondular do espaço
vejo o mundo a desfazer-se diante de mim

o corpo torce-se num esforço em busca de oxigénio
sou bruscamente elevado por força da natureza
ofegante choro como uma criança
abraço-me numa solidão imensa
as lágrimas perdem-se

visto o fato escuro que era do meu pai
está-me demasiado largo mas não importa
com uma camisa branca desbotada e sem um botão
ponho uma gravata azul escura
calço as meias e os sapatos engraxados

vou até à janela
lá fora vê-se um céu claro sem nuvens
fecho os cortinados
deito-me na cama com as mãos sobre a barriga

quero uma morte digna
quero sair sem atrapalhar
quero que me levem sem que tenham pena de mim

fecho os olhos
fecho a boca
fecho os pulmões
fecho o coração
o sangue congela no espaço
a mente congela no tempo

sou de novo semente
sou o que queria ser
sou eu sem piedade
sou eu sem dor
sou eu
apenas
e só


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