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Queria ser eu

Perdi durante uma vida o pôr do sol Perdi vidas que caminhavam comigo Perdi quem eu nunca fui Queria ser alguém Queria ser eu Queria Pego agora na luz que me aquece o rosto Abraço o calor de uma vida, a minha vida Sou quase eu Faltam-me os detalhes Hoje vejo o pôr do sol Hoje sou mais eu Hoje sou

retalhos #1

A pedra negra que recebe o beijo frio deste mar imenso, como se de amor se tratasse. O embalo das ondas que os junta e tão friamente os separa, nesta dança infinita. ______________________________________________________________________________ Espero-te, sentado à beira mar, sentindo o vento e a maresia que me enchem o peito, o mar a rebentar nas rochas que vivem na areia pisada. Espero-te, mas tu não vens. Já não o fazes. Escolhes-te deixar-me aqui nesta imensidão, sozinho. À tua espera. Retiro do sol a energia que já não tenho, só falta a coragem. Essa levaste-a contigo quando partiste. _______________________________________________________________________________ Hoje o dia amanheceu frio, como se os ventos do norte tivessem decidido fazer-nos uma visita. Na estação de comboios um grupo de pessoas espera impaciente pelo calor da carruagem. O frio obriga a uma indumentária mais pesada, quase medieval. Corpos que carregam grandes capotes de peles falsas, gorros e l...

Uma história

Sentado numa daquelas cadeiras típicas de um café de esquina, estava um homem de meia idade, de fato branco e chapéu de palha. Não teria menos de 60 anos, via-se ser uma pessoa de bem, barba bem feita, sorriso na cara, bengala em madeira com uma pequena águia onde pousava as mãos. Comia uma sopa. De tal maneira singular que não passava despercebido a ninguém. Todas as senhoras de idade que se perdiam nos seus encantos coravam de timidez, e ele apenas sorria. Fiquei curioso, quem seria esta personagem, quem seria este homem. Ao fim de pouco tempo chamou a empregada e pediu um copo de água e a conta, com a sua leveza nas mãos retirou do bolso algumas moedas e pagou o seu manjar, e lentamente atravessou o café sempre com um sorriso na cara enquanto acenava gentilmente a cada senhora que lhe sorria. Não resisti e segui-o, tinha de saber quem era. Andava devagar, sempre com o apoio da sua fiel águia que o guiava pelo passeio incerto. Parou em frente a uma igreja, não muito longe do c...

fogo na língua

Leva-me o vento as palavras que debito como balas perdidas numa batalha de nadas A guerra de frases amorosas e gestos carinhosos que ficam como espólios As crianças que correm pelo campo de batalha, sozinhas, com fogo na língua Escuta o ardor das labaredas que amam a madeira que lhes mata a fome Parecem corpos de amantes perdidos na noite fria entre vales de seda É uma guerra perdida esta de sentimentos absurdos, de falsas verdades Encostas-te à melancolia do tempo que se perde entre as frechas de luz que invade o quarto vazio Pernoitas nas lembranças do calor de alguém que partiu nas asas de uma gaivota

Mãos vazias

Trago nas linhas que me atravessam o corpo invisíveis os sonhos de outrora, as memórias de sempre, e a vontade de viver penduradas. Trago vazias as mãos que uso para não deixar cair nada e estilhaçar-se novamente. Na ponta da língua trago o discurso gravado a fogo; está tudo bem. Tenho rios que correm de norte a sul, que arrastam tudo pelo caminho. Pouco tenho que me resta desta vida, senão as finas linhas que carrego. Cabeça cheia. E as mãos vazias.

Esquecer quem sou

Acordei sem saber quem era. Procurei no peito algo que tivesse o meu nome, o meu destino. Mas só havia pó. Pedi aos céus que me limpasse, que me enchesse de alguém, para voltar a ser. Mas nada. Nem um sinal. Nem uma tempestade. Pedi então aos homens que me dessem o que os céus me recusaram. Deram-me tristeza e a solidão. Quero deitar-me e esquecer quem sou.

Solstício de verão

Caiem as estrelas nesta noite fria de chuva intensa. Nas ruas correm gatos selvagens, como os invejo. Puder sentir as estrelas na pele, livre. No ar o cheiro da terra molhada que nos transporta para a infância. Acendo um cigarro. Vou queimando os minutos de uma vida estagnada por entre os dedos. Ao longe alguém ri, aqui chora-se ao ritmo da chuva. O fumo invade o ar à minha volta, numa nuvem quase mística de solstício de verão. Ouve-se Chet Baker. Bebe-se o luar. Vomita-se a vida. Queima-se a vontade de viver. É só mais uma noite. É só mais um delírio de um homem triste.